Nova aventura de Dinis

13/10/2021 15:18

            Novamente, da janela, vi meu vizinho dirigir-se ao mercado levando consigo a vontade de contribuir com sua doação semanal. Então, resolvi observar de perto o que ele faria. Dinis seria apenas um desses fanfarrões que incentiva os outros a fazer o bem que ele mesmo não faz? Ou não?... É o que eu iria descobrir.

          Para que o vizinho não me identificasse, antes de descer, pus máscara nova e, para  não ser traído pelo olhar, coloquei uns óculos pretos da marca Ray Ban, que ainda não usara. Além disso, usei um boné, camisa e short do Flamengo, embora ele saiba que sou torcedor do Fluminense. Devidamente disfarçado, fui à empresa...

            Dinis adentrou o mercado, foi direto ao corredor das cestas básicas, pegou um pacote e encaminhou-se para a fila do caixa destinado ao atendimento a idosos, grávidas etc., pois, como eu disse na crônica anterior, somos idosos. Ali chegando, viu que havia três pessoas na fila, mas apenas a terceira era idosa. As duas primeiras, quando muito, estavam na casa dos cinquenta anos de idade, não eram grávidas, portadoras de necessidades especiais e nem levavam ao colo crianças. Uma delas já estava sendo atendida pelo caixa, que nem se deu ao trabalho de conferir a idade das clientes. O idoso, à frente de Dinis, bengala na mão, conduzia um carrinho cheio de compras, e a jovem, antes daquele, carregava dois ou três pequenos volumes.

            Uma senhora idosa postou-se atrás de Dinis e, vendo-o com a cesta básica nos braços, perguntou-lhe qual era o preço do pacote. Após ser informada, disse-lhe que gostava de, por vezes, comprar uma cesta básica e doá-la. Dinis, discretamente, respondeu-lhe que fazer o bem é sempre bom. E nada mais disse.

            Ao sair do mercado, meu vizinho foi abordado por uma jovem que trazia um bebê no colo e lhe pediu dinheiro. Dinis parou, ajeitou sua cesta básica, e respondeu-lhe:

            — Vou ver se tenho algum... — Puxou sua carteira do bolso e, antes de abri-la, a jovem estipulou a quantia que desejava. Demonstrando certa contrariedade, meu amigo deu-lhe o valor solicitado e o seguinte conselho:

            — Senhora, quando pedir auxílio financeiro, nunca diga o valor que deseja receber...

            Tão logo a jovem mãe afastara-se com a espórtula recebida, aproximei-me de Dinis, identifiquei-me e cumprimentei-o por tudo que o vi fazer. Meu amigo agradeceu-me, mas reconheceu não ter agido bem com a jovem mãe.

            — Por que não? Vi quando você lhe deu exatamente o que ela lhe pedira — protestei. Dinis baixou os olhos tristes e, como se monologasse, concluiu:

            — Não devemos, mesmo a título de orientação, repreender quem se humilha nos pedindo ajuda material. Aquela jovem mãe pode ter ouvido meu conselho como uma crítica. Por outro lado, não basta que tiremos do bolso um pequeno valor e o entreguemos a quem nos pede auxílio. É também muito importante que ouçamos essa pessoa, que nos interessemos por sua situação e lhe sejamos solidários, até mesmo para tentarmos auxiliá-la com uma ocupação digna, caso isso seja possível.

            Agradeci ao meu vizinho amigo e também passei a refletir...

 

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Sobre o Autor

Jorge Leite de Oliveira é

Consultor Legislativo aposentado da CLDF. Formação acadêmica: Bacharel em Direito (Advogado, OAB/DF 16922); grad. em Letras (UniCEUB); pós-grad. em Língua Portuguesa(CESAPE/DF) e em Literatura Brasileira (UnB); Mestre em Literatura e Doutor em Literatura pela UnB. Professor de Língua Portuguesa, Redação, Orientação de Monografia, Literatura e Pesquisas, no UniCEUB, de 1º set. 1988 a 1º jul. 2010. Palestrante, escritor, revisor e articulista espírita. Autor do Blog: <jojorgeleite.blogspot.com/>.

 

Autor dos livros:

1. Texto acadêmico: técnicas de redação e de pesquisa científica. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

2. Guia prático de leitura e escrita. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

3. Chamados de Assis: espaços fantásticos do Rio mutante na obra machadiana. Curitiba, PR, 2018.

4. Da época de estudante de Letras: edição esgotada: Mirante: poesias. Brasília: Ed. do autor, 1984.

5. Texto técnico: guia de pesquisa e de redação. 3. ed. rev., ampl. e melhorada. Brasília: abcBSB, 2004 (também esgotada).

 

Contato:

jojorgeleite@gmail.com