Espiritualidade e Política

por Alexsandro M. Medeiros e Alexis Guerra

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postado em dez. 2017

atualizado em ago. 2021

versão em Espanhol

            O website Sabedoria Política aborda a Ciência Política sob seu aspecto multidisciplinar, interdisciplinar, transdisciplinar e transpessoal. Isso significa que a Política aqui é considerada a partir de sua relação multifacetada com as diferentes áreas do conhecimento humano, como a Filosofia, Economia, Psicologia, História e tantas outras áreas do conhecimento, como também aborda a realidade das relações humanas a partir de uma perspectiva integral que entende que o ser humano é algo muito mais do que um simples corpo material, mas inclui uma dimensão psíquica e espiritual que precisa ser levada em consideração sob pena de mutilarmos a realidade na qual vivemos. Tal visão compreende que a “espiritualidade e a política são duas realidades fundamentais da vida [...] ‘No âmbito do interpessoal, no reino de como tu e eu nos relacionamos com o outro como seres sociais, não há áreas mais importantes do que as da espiritualidade e da política’” (OCAÑA, 2016, p. 3).

            Nenhuma ideologia, nenhum sistema político, ordem econômica ou social estará completo e poderá solucionar os grandes problemas que afligem a humanidade enquanto não abordar a realidade humana sob este aspecto integral e transpessoal. A política tal como é entendida hoje, quase que exclusivamente do ponto de vista materialista, precisa completar-se pelos caminhos do espírito. De certo modo concorda-se com Ottaviani (2015, p. 516), quanto este afirma que não basta a reforma das estruturas políticas se esta não for acompanhada de uma visão espiritual “alicerçada num árduo processo da constituição de si enquanto sujeito ético, apoiada ou não em alguma crença religiosa”. E mais adiante: “nenhuma reforma política será suficiente, nenhuma estrutura de poder será honesta e eficaz, se os atores dessa nova e promissora peça não forem mudados ou transmutados” (OTTAVIANI, 2015, p. 521). O conceito que preferimos adotar aqui é o de espiritualidade, ou seja, a justiça social só será possível de ser alcançada quando homens e mulheres trabalharem em prol de sua evolução espiritual (do ponto de vista individual e coletivo).

            Uma visão ampliada da política, que inclui o aspecto espiritual do ser humano e na qual se baseia nossa compreensão, não se funda apenas em pressuposições teóricas e religiosas, mas procura fundamentos científicos e filosóficos que nos permitam pensar a realidade em sua dimensão além da realidade material, que aqui chamamos de espiritual.

            Por isso esta abordagem estaria incompleta se não incluísse uma reflexão em torno do tema da espiritualidade tematizado sob outros enfoques que, embora não necessariamente políticos, são fundamentais para a compreensão da vida em sociedade em toda sua complexidade. Por isso o website inclui uma seção sobre Espiritualidade e Ciência e Espiritualidade e Filosofia, que completam nossa visão de mundo e se liga de forma sinérgica à Ciência Política.

            Além disso essa visão de mundo amplia os horizontes para se pensar a Política e as políticas públicas que afetam diretamente a vida em sociedade considerando a necessidade de pensá-las igualmente a partir da dimensão espiritual. Por isso o site também apresenta seções específicas dedicadas à análise da espiritualidade a partir de políticas públicas como a educação, saúde, meio ambiente, onde estão presente discussões que envolvem a Educação e Espiritualidade, Saúde e Espiritualidade, Meio Ambiente e Espiritualidade.

            Algumas personalidades inspiram-nos a buscar aproximar esse tema que envolve espiritualidade e política. Mahatma Ghandi, Martin Luther King Jr., além de filósofos e pensadores como Platão, Sócrates, Henri Bergson, Pietro Ubaldi e as ideias da Filosofia Oriental.

            Suas teorias e exemplos de vida devem inspirar não apenas o cidadão de bem, mas também todo aquele que se dispõe a governar e administrar uma cidade. Deve inspirar em cada um de nós o senso do dever, de justiça social, de luta pela transformação da sociedade e “a autêntica finalidade da política, que consiste na busca do bem comum do próprio país e da humanidade” (BAGGIO, 2004, p. 37).

            Inspirados em seus exemplos de vida o cidadão de bem, que pretende fazer da política uma missão, “procura tomar decisões que criam condições para que cada cidadão, e a comunidade como um todo, realize o desígnio de que é portador, a sua missão na história” (BAGGIO, 2004, p. 38). Obedecendo, como Sócrates, a sua própria consciência, o cidadão de bem “vive em contínua atitude de escuta da voz que fala dentro dele, num constante diálogo interior com ela. Por esse hábito de diálogo consigo mesmo, ele aprende a dialogar também com os outros, e os ajuda a descobrir a voz que fala dentro deles” (id., ibidem, p. 38).

            O compromisso do cidadão de bem – que Baggio (2004) chama de o político da unidade, em alusão ao Movimento Político pela Unidade – é com a máxima: ama ao teu próximo como a ti mesmo; ou “Tudo aquilo que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”. (Mt 7,12). Ampliando a máxima do amor ao próximo e analisando sob o prisma da fraternidade, Lubich (2001, p. 8) – em discurso realizado na Câmara Municipal de Trento/Itália –, pondera que a fraternidade é necessária em todo lugar e, inclusive, na política:

também os políticos são chamados a colocá-la em prática e a sentir-se irmãos entre si, antes mesmo da paixão pelo próprio partido, antes das escolhas que distinguem as diversas opções. O amor fraterno une e ilumina as decisões a serem tomadas e torna as pessoas mais aptas a atingir o objetivo final da própria política, que é o bem comum.

            Um bom governante não é o astuto, que visa seus próprios interesses e se pratica o bem o faz apenas de forma superficial e com objetivos eleitorais. Um bom governante procura usar o poder espiritual que há dentro de si para fazer o bem de forma desinteressada e amorosa. Também não “basta adquirir técnicas de governança. É preciso adquirir a sabedoria para governar e isso passa necessariamente pelo governo de si mesmo, campo aberto para o exercício da espiritualidade” (OTTAVIANI, 2015, p. 521).

            Um governante sábio é alguém que pensa as políticas públicas sob um ponto de vista espiritual e, por isso, pensa a educação, a saúde, o meio ambiente, de forma integral, e não vê oposição entre Saúde e Espiritualidade, Educação e Espiritualidade, mas sim uma consequência lógica e necessária da vida, porque pensa uma espiritualidade centrada na defesa dos direitos humanos, na defesa dos direitos das minorias e de todas as pessoas, sem discriminação de raça ou gênero, na defesa da vida.

 

Espiritualidade versus Religião

            Propositalmente utiliza-se o termo Espiritualidade e Política, ao invés de Religião e Política e, por isso, se faz necessário algumas palavras para explicar essa distinção conceitual. Utiliza-se o conceito de espiritualidade ao invés de Religião por ser um conceito mais amplo e “[...] por incluir também formas não religiosas de lidar com as dimensões profundas da subjetividade” (VASCONCELOS, 2008, p. 315).

Lukoff (1992), por exemplo, distingue religiosidade de espiritualidade, definindo a primeira como adesão a crenças e a práticas relativas a uma igreja ou instituição religiosa organizada, e a segunda como a relação estabelecida por uma pessoa com um ser ou uma força superior na qual ela acredita [...] Worthington, Kurusu e McCullough (1996) definem uma pessoa religiosa como aquela que possui crenças religiosas e que valoriza, em alguma medida, a religião como instituição. Já uma pessoa espiritualizada é aquela que acredita, valoriza ou tem devoção a algum poder considerado superior, mas não necessariamente possui crenças religiosas ou é devoto de alguma religião institucionalizada (apud FARIA; SEIDL, 2005, p. 381).

            De modo geral, a espiritualidade é um aspecto necessariamente presente na religião, mas a religião não está, necessariamente, presente na espiritualidade.

            Quando se fala em espiritualidade não está se referindo a uma religião específica, mas a uma necessidade de vivência existencial que procura uma relação com algo que transcende a realidade, considerando-o sagrado, independente de rótulos religiosos. Neste sentido, qualquer religião que tenha a característica do sagrado e do transcendental é entendida aqui como uma prática espiritual: seja cristã, espírita, hindu, islâmica, umbanda etc.

Disponível em: Blog Oculto Revelado (Acessado em 05/11/2015)

            Cervantes (2015 apud OCAÑA, 2016, p. 4), “define a espiritualidade como experiência de sentir que fazemos parte de algo maior e mais profundo que nós mesmos, algo que nos liga a tudo e a todos, que nos leva a ver todos os seres humanos como irmãos e ao planeta como a casa comum que temos de cuidar”.

            Finalmente podemos dizer que o termo espiritualidade aqui é tomado na mesma acepção do psiquiatra italiano, conhecido como o pai da Psicossíntese, Roberto Assagioli (1888-1974).

 

Falando de espiritualidade, Assagioli (Grof, 1989) esclarece-nos que: uso o termo “espiritual” em sua conotação mais ampla e sempre com referência à experiência humana, empiricamente observável. Nesse sentido, “espiritual” remete não somente às experiências tradicionalmente consideradas religiosas, como também a todos os estados de consciência e a todas as funções e atividades humanas que têm como denominador comum a posse de valores superiores, aos comuns – valores éticos, estéticos, heróicos, humanitários e altruístas (BOCCALANDRO, 2006, p. 77-78).

 

O Monismo de Pietro Ubaldi

           Na capa do livro A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi, lê-se: Síntese e solução para os problemas da Ciência e do Espírito, porque para este filósofo italiano, ambos os caminhos da fé e da pesquisa são apenas dois caminhos, dois caminhos na busca por Deus.

            Para este autor, a realidade é “dividida por barreiras de espaço e tempo; a unidade aparece pulverizada no particular...” (UBALDI, 1992, p. 34 - tradução nossa). Com isso, ele argumenta que a verdade absoluta, o conhecimento exato escapa de uma ciência que rejeita e retira o Espírito de sua análise e, portanto, conclui, especialmente no campo das ciências sociais, em que o fator moral deve entrar em consideração como determinante para alcançar verdades mais profundas.

            Ubaldi afirma que toda a criação universal está sujeita a uma “Lei da dualidade” em que cada parte tem sua contraparte, correspondente e complementar.

A unidade é um casal; o universo é monismo como um todo, dualismo no detalhe, uma dualidade que contém o princípio de contradição e fusão ao mesmo tempo, que divide e agrupa e concede a cada forma de ser uma estrutura simétrica (princípio de simetria) e ao desenvolvimento de todo fenômeno uma correspondência perfeita de forças equilibradas (UBALDI, 1992, p. 120 - tradução nossa).

            Isso deixa claro que estudar um fenômeno separado da espiritualidade é restringir a investigação, é limitar a visão a apenas uma parte do problema. Além disso, Ubaldi considera que existe uma inter-relação, uma interconexão entre todos os fenômenos em um Universo no qual Deus é também Criação (Monismo), regido por leis que incluem até mesmo a atividade social. “Um fenômeno isolado é uma abstração nossa pela necessidade de estudo, que não corresponde à realidade” (UBALDI, 1986, p. 12 - tradução nossa).

            É justamente essa limitação da pesquisa que nos impede de levar em conta o que Ubaldi chama de “o imponderável”, o conjunto de leis que regem a maior parte de nossas ações e que são decisivas na vida. A esse respeito, o provérbio chinês diz que o bater das asas de uma borboleta pode ser sentido do outro lado do mundo; frase que foi considerada para formular a chamada “Teoria do Caos” que se baseia na imprevisibilidade de um sistema caótico. Para este autor, tudo no universo, mesmo o que parece indisciplinado e casual, é regulado por regras, ou seja, falar em coincidências de imprevisibilidade ou caos é um absurdo.

Toda força se move por concatenação, em busca de uma finalidade precisa, segundo o princípio de causa e efeito, mesmo quando as forças surgem mesmo em estado caótico, típico das fases mais regredidas, visto que, íntima e oculta, o pensamento e a vontade de Deus mantem as redes e governa o caos (UBALDI, 1986, p. 185 - tradução nossa).

            A política também contém essa dualidade de que fala Ubaldi, dois aspectos, duas forças, que se unem e se opõem, mas que se complementam; uma centralizadora, hegemônica, vertical (Hobbes, Maquiavel), a outro é o mercado livre, horizontal (Thomas Paine, Adam Smith). Esses dois impulsos que movem a evolução, que fazem avançar a humanidade, conduziram a Política a melhores sistemas de convivência humana e que, na modernidade, se manifestam no Comunismo e no Capitalismo, duas partes de um mesmo fenômeno que se dirige a uma nova forma de fazer política, na qual o melhor das duas ideologias se fundirá. Este fenômeno, observável na história, é impulsionado por essas forças imponderáveis, pelas leis de Deus, que são decisivas em todas as situações e que é preciso levar em conta para chegar a conclusões mais precisas.

            Por essas razões válidas, a Ciência Política não pode ser tomada como uma disciplina isolada, produto apenas de forças ou cálculos humanos, pois corre o risco de se tornar o que o renomado cientista político italiano, Giovanni Sartori (apud CANCINO 2008, p. 7 - tradução nossa), chamou de “elefante branco cheio de dados, mas sem ideias ou substância, presos em conhecimentos inúteis para abordar a realidade em toda a sua complexidade”.

 

Referências Bibliográficas

BAGGIO, Antonio Maria. Espiritualidade da Unidade na Política. Tradução de José Maria de Almeida. ABBA – Revista de Cultura, São Paulo, Vol. VII, n. 3, pp. 35-46. Acesso em 30/10/2017.

BOCCALANDRO, Marina Pereira R. Psicossíntese - um enfoque psicológico positivo-humanista-transpessoal. Boletim Academia Paulista de Psicologia, vol. XXVI, núm. 3, p. 74-81, set./dez., 2006.

CANCINO, César. La Muerte de la Ciencia Política. Buenos Aires: Editorial Suramericana, 2008.

CERVANTES, Cristóbal. Espiritualidad y política. Kairós, 2015.

FARIA, Juliana Bernardes de; SEIDL, Eliane Maria F. Religiosidade e enfrentamento em contextos de saúde e doença: revisão de literatura. Psicologia: Reflexão e Crítica, vol. 18, n. 3, p. 381-389, 2005. Acessado em 07/11/2015.

LUBICH, Chiara. A Fraternidade no horizonte da cidade. Tradução de José Maria de Almeida. ABBA – Revista de Cultura, São Paulo, Vol. VI, n. 3, pp. 7-17, 2001. Acesso em 30/10/2017.

OCAÑA, Emma. Espiritualidade e Política. Fundação Betânia, 2016.

OTTAVIANI, Edelcio. Espiritualidade e política: considerações sob um ponto de vista filosófico. Revista Pistis & Praxis, Teologia Pastoral, Curitiba, v. 7, n. 2, p. 513-530, mai./ago. 2015. Acesso em 29/10/2017.

UBALDI, Pietro. La Gran Síntesis. 7ma. Edición en Español.  Maracaibo: Instituto Pietro Ubaldi de Venezuela, 1992.

UBALDI, Pietro. Ascensões Humanas. Campos dos Goytacazes-RJ: Fundação Pietro Ubaldi, 1986.

VASCONCELOS, Eymard Mourão. Espiritualidade, educação popular e luta política pela saúde. Revista APS, v. 11, n. 3, p. 314-325, jul./set. 2008. Acesso em 29/10/2017.

 

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