Estoicismo

 

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jan. 2019

            O Estoicismo é uma escola filosófica do chamado período Helenista. Ganhou este nome pelo pórtico (Stoá) pintado (poikílé) onde foi fundada e onde os filósofos se encontravam, por volta de 300 a.C. Atribui-se a Zenão de Cicio (333-261 a.C.), da ilha de Chipre, a origem da doutrina Estóica.


Zenão não era cidadão ateniense e, como tal, não tinha direito de adquirir um edifício; por isso, ministrava suas aulas em um pórtico, que fora pintado pelo pintor Polignoto. Em grego, "pórtico" diz-se stoá. Por essa razão, a nova Escola teve o nome de "Estoá" ou "Pórtico" e seus seguidores foram chamados "os da Estoá", "os do Pórtico", ou simplesmente" Estóicos" (ANTISERI; REALE, 2007, p. 280).

            Quando Zenão chegou em Atenas encontrou várias doutrinas e escolas filosóficas: lá estavam em atividade a Academia fundada por Platão, dirigida por Polemon; o Liceu de Aristóteles, dirigido por Teofrasto; além das ideias propagadas por Epicuro e as escolas socráticas menores, como: os cínicos, cirenaicos e megáricos.

Ao chegar a Atenas em 312/311, fre­quentou sucessivamente diversos mestres, primeiro o cínico Crates (e desta iniciação socrático-cínica à filo­sofia restam vestígios nas notícias que temos de uma República, escrita por Zenão, provavelmente em polé­mica com a obra homónima de Platão e com alguns conteúdos paradoxais ou escandalosos do livro), em seguida os megáricos Estílpon e Diodoro Crono, com os quais deve ter aprendido muito de dialética, e por fim o académico Pólemon. Mas já em 301 Zenão era capaz de expor um seu ponto de vista em conversações e lições que começou a dar sob o Pórtico pintado (Stoa poikile) de Atenas, do qual a escola que informalmente se constituiu retiraria o nome de «estoica» (DONINI; FERRARI, 2012, p. 311-312).

            Em meio a todo este conjunto de ideias existentes em Atenas, Zenão desenvolveu suas próprias teorias. O que a filosofia de Zenão pregava era o viver de acordo com a razão e o bem, ou mais especificamente, viver de acordo com a Natureza. Zenão postulou a ideia de que a Natureza é permeada de racionalidade e o mundo é um todo orgânico e solidário, dirigido por uma razão universal (logos universal). Na filosofia estóica não há lugar para o acaso e a desordem. Há uma racionalidade universal no Mundo (cosmos) e o objetivo da moral (as escolas filosóficas deste período dão grande ênfase ao aspecto moral) será, por isso mesmo, submeter-se a essa racionalidade, ou seja, “seguir a Natureza”.

            Seguir a Natureza significa seguir uma vida de virtude pois, se a Natureza é boa e racional, então o homem deve procurar viver segundo a razão e o bem, isto é, tornar-se virtuoso. Nas palavras de William Li (apud SÊNECA, 1993, p. 15):

A virtude será o ideal máximo dos filósofos estóicos que, por se apegarem exclusivamente a ela, desprezaram os outros bens considerados importantes para os homens... Daí surge a imagem popular do sábio estóico como aquele que é indiferente aos prazeres, bem como às adversidades do mundo, e se mantém obstinadamente preso a seu único ideal de virtude.

            O Estoicismo se caracteriza principalmente pelo primado das questões morais. Abbagnano (2007, p. 375) resume como sendo os principais fundamentos da filosofia estóica: 1) a divisão da filosofia em lógica, física e ética; 2) concepção da lógica como dialética; 3) análise sobre a teoria dos signos (antecedente da semiótica moderna); 4) conceito de razão divina (logos); 5) a razão é um guia infalível para o ser humano; 6) exaltação da apatia como ideal do sábio, ou seja, ausência de toda paixão perturbadora do espírito; 6) doutrina cosmopolita: o homem como cidadão do mundo.

Disponível em: Thegolfclub. Acesso em 13 jan. 2019


            O Estoicismo costuma ser dividido em três fases: o antigo estoicismo (séc. III-II a.C.), que teve origem com Zenão, Cleanto e Crisipo; o médio estoicismo (séc II a. C.) de Panécio e Possidônio; o novo estoicismo (séc. I a.C. a II d.C.) de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio.

            Neste texto iremos dar ênfase as ideias dos filósofos do estoicismo romano Sêneca e Marco Aurélio, seja por suas obras de caráter político, seja por terem ocupado cargos públicos. Sêneca foi membro do senado romano e também questor; e Marco Aurélio foi imperador. Iremos incluir nesta análise o filósofo romano Cícero que, embora não seja tecnicamente um filósofo estóico, suas ideias sobre a moral fazem dele um adepto das doutrinas estóicas, além de ter sido um influente senador romano. Vejamos um pouco de suas ideias (sobre Cícero, acesse o link: Marco Túlio Cìcero).

Disponível em: Thegolfclub. Acesso em 13 jan. 2019

 

Sêneca

            Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) nasceu em Córdoba, na Espanha. Após se mudar para Roma onde recebeu sua educação tornou-se famoso como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do senado romano e depois nomeado questor e cônsul. Acusado de adultério retornou para a Espanha, para a cidade de Córsega, onde viveu por mais de 10 anos. Depois foi requisitado pela esposa do imperador Cláudio, para educar seu filho Nero. Quando Nero se tornou imperador em 54 d. C., Sêneca se tornou seu principal conselheiro. Mas essa relação dura pouco e em 65 d. C. Sêneca é condenado por Nero ao suicídio.

NERO E SÊNECA

Disponível em: Metaética. Acesso em 13 jan. 2019

 

            Ao longo de sua vida Sêneca escreveu várias obras.

Da rica produção de Sêneca, chegaram até nós: De providentia, De constantia sapientis, De ira, Ad Marciam de consolatione, De vida beata, De otio, De tranquillitate animi, De brevitate vitae, Ad Polybiurn de consolatione, Ad Helviam matrem de consolatione (esses escritos também são indicados pelo título geral de Dialogorum libri). Além desses, também nos chegaram: De Clementia, De beneficiis, Naturales quaestiones (em oito livros) e a imponente coletânea das Cartas a Lucilio (124 cartas divididas em vinte livros). Também nos chegaram algumas tragédias, destinadas mais a leitura do que a representação, em cujas personagens se encarna a ética de Sêneca (Hercules furens, Troades, Phoenissae, Medea, Phaedra, Oedipus, Agamemnon, Tbyestes e Hercules Oetaeus) (ANTISERI; REALE, 2007, p. 326).

            As obras de Sêneca têm um conteúdo profundamente moral, mas também é possível perceber aspectos políticos em suas obras, como no caso de Sobre a Tranquilidade da Alma (De tranquillitate animi), que também aborda o assunto do problema da participação na vida pública; Sobre a Clemência (De Clementia), onde se encontra uma cautelosa advertência a Nero sobre os perigos da tirania; e em Da Brevidade da Vida (De brevitate vitae), onde Sêneca faz uma análise das frivolidades nas sociedades corruptas.

            A doutrina filosófica de Sêneca, em consonância com os preceitos estóicos, privilegiava a harmonia do homem com a natureza, apoiando-se em preceitos morais, em uma época em que a sociedade romana passava por declínios de valores, tradições e costumes. Nesse contexto, Sêneca propõe uma série de reflexões de caráter moral onde se destacam valores como a honestidade, a verdade, o homem virtuoso desprovido de vícios.

            Para Sêneca a atividade filosófica deve estar centrada na ação e no exercício da virtude; sua preocupação predominante é a utilidade moral da filosofia e todas as demais questões estão subordinadas à questão da reforma moral do indivíduo; o sábio é um “artífice da vida” e a filosofia tem como meta nos conduzir à reta ação. Por isso, diz Sêneca, “não há filosofia sem virtude, nem virtude sem filosofia” (In: SÊNECA, 1993, p. 15). “A prioridade dada à moral é o traço mais importante do pensamento de Sêneca e constitui uma das características da filosofia helenística e romana. A filosofia helenística é individualista e se propõe como uma ars vitae (arte de vida)” (In: SÊNECA, 1993, p. 15).

            Estas são as principais características da filosofia para Sêneca: 1) servir de guia para nossas ações no bem: “ela ordena a vida, regula a ação, mostra o que deve ser feito e o que deve ser evitado” (In: SÊNECA, 1993, p. 15); 2) serve de consolo: em um mundo cheio de incertezas e instabilidade, a filosofia fortalece a alma diante da morte, da dor e das vicissitudes da condição humana; 3) a filosofia é comparada à medicina: fornece remédios para alma; 4) arte de morrer (além de viver): “vive mal quem não sabe morrer bem” (In: SÊNECA, 1993, p. 15).

            Sêneca vai buscar na história, o que ele chama de os fundadores das sublimes filosofias, “homens cujas existências são verdadeiros exemplos para a humanidade e que estão sempre à disposição para atender aos que a eles recorrem” (MELO, 2005, p. 133), para nos auxiliar com o nosso desenvolvimento moral. São eles: Sócrates, Carnéades, Epicuro, os sábios Estóicos e muitos outros. Com o conhecimento que nos foi transmitido pelos sublimes filósofos e, dedicando-se o indivíduo a um amplo processo de reflexão “o homem estaria apto para iniciar a sua busca pela sabedoria, a qual levaria à felicidade. Esta configurava-se, para Sêneca, como o fim da vida humana” (MELO, 2005, p. 133).

            A filosofia, todavia, não se resume, para Sêneca, a preceitos ou um saber meramente teórico, mas define-se pela capacidade de agir, de exercício da virtude, dando forma e estrutura para nossa alma, orientando nossos atos, apontando-nos o que devemos fazer. “Em síntese, a preocupação de Sêneca era chegar à formação de um homem ideal, um agente social que correspondesse às necessidades de uma sociedade em transformação” (MELO, 2005, p. 134). A filosofia representa ainda uma tomada de consciência da nossa condição de seres mortais ao nos proporcionar importantes reflexões sobre a morte, servindo como guia para nossas ações, além de refúgio e consolo; auxiliando na formação da alma e no desaprendizado dos vícios.

            Revestido de tantas e inumeráveis qualidades, o homem que se torna uma sábio, pelos caminhos da filosofia, “teria condições para ser o legislador, o jurista, o político, porquanto era ele quem melhor sabia discernir o que era justo e injusto para o homem e para o Estado” (MELO, 2005, p. 136). Por causa das experiências negativas que Sêneca teve enquanto homem público, Sêneca julgava que o sábio somente deve se ocupar dos negócios públicos quando a sua presença for necessária e jamais quando for constrangido a fazer ou suportar algo que seja indigno de um homem de bem. O sábio deve se ausentar dos negócios públicos quando perceber que está envolvido em uma situação de opressão ou ambígua, retirando-se gradualmente para um lugar seguro. Um cidadão não pode se furtar à responsabilidade política pelo simples ato de fazê-lo, mas quando as razões o justifiquem.

            Quando as razões justifiquem o sábio de se ausentar da coisa pública, existem outras formas de servir a república? E em caso afirmativo, quais seriam elas? O sábio deve consagrar-se à educação, transformando-se em um pedagogo, servindo a república, pois

ocupa-se, no particular, de assunto público também aquele que exorta a juventude, aquele que em meio à tamanha falta de bons preceptores insinua às almas virtude, aquele que segura e afasta os que se precipitam ao dinheiro e à luxúria e, se não o consegue de todo, pelo menos os retarda [...] aquele que pronuncia o que é a justiça, o que é a piedade, o que é a paciência, o que é a coragem, o que é o desprezo da morte, o que é o conhecimento dos deuses (Sobre a tranquilidade da alma, III, 1-6 apud MELO, 2005, p. 137-138)

            O sábio se retira da vida pública e é aconselhado ao ócio, mas um ócio em que a ação é tão válida e tão digna quanto os negócios públicos. O sábio não leva uma vida inerte, mas se tornam útil aos homens pelos ensinamentos que os transmitem.

o sábio, embora levando uma vida retirada, nem por isso passa a situar-se à margem do Estado; o mais que sucede é que ele, deixando um lugarejo estreito, acede a espaços mais vastos e mais largos [...]. Sim, aconselho-te o ócio – um ócio em que a tua ação será mais válida e mais digna do que o mundo em que vivas (Cartas, 68, 2.10 apud MELO, 2005, p. 138).

            O fato de Sêneca ter sido professor de Nero explica sua ênfase no papel do sábio como pedagogo e educador. A obra Sobre a Clemência ou Tratado sobre a Clemência (De Clementia, no original latino), foi escrita em 56 d.C., dois anos depois de Nero assumir o trono aos 18 anos em 54 d.C. Nela se encontra uma cautelosa advertência a Nero sobre os perigos da tirania, orientando o imperador a governar com sabedoria seu povo. A obra apresenta um conteúdo histórico-político e argumentos em favor de um governo autoritário cujo elemento humanístico indispensável se fundamenta em um ideal caracterizado pela virtude da Clemência, para que o governo tenha êxito. Somente pela Clemência se pode distinguir um rei de um tirano.

            A definição que Sêneca dá de Clemência (SÊNECA, 2013, p. 43 – II, 3, 1-2) envolve algumas características que vão desde a temperança de espírito e brandura para exercer castigo e penalidades; ate a inclinação de espírito para a brandura na execução da punição.

 

Marco Aurélio

            Marco Aurélio Antonino (121-180 d.C.) foi imperador romano durante quase 20 anos (de 161 d.C. até o ano de sua morte) e dedicou boa parte do seu tempo à reflexão filosófica, sendo o último representante da filosofia estóica. Marco Aurélio escreveu várias notas sobre seus pensamentos que depois foram reunidas e compõe suas Meditações ou Recordações: uma obra composta sobretudo de reflexões de caráter prático e aconselhamentos morais. “A obra de Marco Aurélio não fora somente um simples escrito, mas uma espécie de caminho formulado a ser seguido pelo imperador. O livro não contém confissões ou autobiografia, contém a moral e seus valores intelectuais” (ONESKO; VENTURINI, 2015, p. 2).

            Em suas Meditações, Marco Aurélio reflete “sobre a fugacidade do tempo e a precariedade da vida, sobre a dificuldade de estar com os homens, sobre a sua inadequação não tanto de imperador ro­mano, mas simplesmente de homem, de ser racional” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 418). “Uma das características do pensamento de Marco Aurélio, a que mais impressiona os leitores de Recordações, é a insistência com que ele tematiza e reafirma a caducidade das coisas, sua passagem inexorável, sua monotonia, insignificância e substancial nulidade” (ANTISERI; REALE, 2007, p. 331). Através de sua obra podemos ainda perceber alguns elementos do pensamento de Marco Aurélio, tais como: uma visão panteísta do Uno-Todo; uma visão do homem constituído de corpo, alma e mente; um dever moral no plano ético e antropológico que dá sentido ao viver; um forte sentimento religioso de devoção aos deuses.

            Onesko e Venturini (2015) ressaltam a influência do estoicismo de Marco Aurélio sobre a moral e o direito. Representando um pensamento filosófico marcadamente de natureza moral, encontramos na obra do imperador reflexões sobre a honra, a serenidade, generosidade, piedade, beneficência e muito mais. “O imperador Marco Aurélio no decorrer do seu Império, utilizou-se da filosofia para construir e reafirmar uma postura imperial, uma postura embasada em valores morais estoicos” (id., ibidem, p. 6).

            Em sua obra encontramos igualmente um sentimento de dever cívico para com a vida pública, enaltecendo as obrigações do cidadão romano que deve voltar-se para a comunidade. “Para o imperador, como para os homens, servir a Pátria e a cidade, seria a grande meta. Pois, ‘tudo que acontece a cada um é útil ao todo [...] tudo que é útil a um homem é útil também aos outros homens’” (AURÉLIO, 1977 p. 125 apud ONESKO; VENTURINI, 2015, p. 9). Como político procurou colocar seus princípios filosóficos em prática, a partir dos princípios que o marcaram como imperador estóico, tais como: “amor e apreço pela verdade e pela justiça, a concepção de uma constituição equilibrada, e de uma monarquia que considerava a liberdade do indivíduo” (BIRLEY, 1999, p. 95-96 apud ONESKO; VENTURINI, 2015, p. 12-13)

            Marco Aurélio contribui com o desenvolvimento das leis romanas, ao instituir o registro de nascimento e enfatizar os direitos dos filhos adotados e órfãos no que diz respeito à guarda e ajuda (vale salientar que ele próprio era um filho adotivo)

 

Referências Bibliográficas

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. revista e ampliada. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ANTISERI, Dario; REALE, Giovani. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2007. vol. 1

AURÉLIO, Marco. Meditaciones - Introducción de Carlos García Gual. Madrid: Editorial Gredos, 1977.

BIRLEY, A.R. Marcus Aurelius, a Biography. Barnes & Nobles Books/Routledge, New York, 1999.

DONINI, Pierluigi; FERRARI, Franco. O exercício da razão no mundo clássico: perfil de filosofia antiga. Tradução de Mara da Graça Gomes de Pina. São Paulo: Annablume Clássica, 2012.

MELO, José Joaquim Pereira de. Sêneca: o papel do sábio na formação da humanidade. Série Estudos, Campo Grande-MS, n. 20, p. 129-141, jul./dez. 2005. Acesso em: 20 dez. 2018.

ONESKO, Stéfani de Almeida; VENTURINI, Renata Lopes B. As Meditações do Imperador Marco Aurélio. Anais da XIV Jornada de Estudos Antigos e Medievais, Maringá-PR, 18 a 20 de novembro de 2015.

SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. Tradução, introdução e notas de William Li. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.

____. Tratado sobre a Clemência. Tradução e introdução: Ingenborg Braren. Petrópolis: Vozes, 1990, 2013.

 

Filosofia Helenística

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